Em especial sobre o Dia Internacional da Mulher, entrevistamos profissionais que atuam de diferentes maneiras no setor automotivo

texto Vitor Lima fotos Divulgação
O setor automotivo, historicamente identificado por um perfil predominantemente masculino, atravessa hoje uma das suas fases mais profundas de reconfiguração. Mais do que uma busca por representatividade, a entrada de mulheres em cargos técnicos, estratégicos e operacionais responde a uma demanda real por precisão, novas perspectivas de gestão e mão de obra altamente qualificada. Nesta análise, observamos como a competência técnica tem superado barreiras culturais e como diferentes frentes do mercado, da graxa no pátio à gestão global, estão sendo ocupadas por profissionais que priorizam a performance, a atualização constante e o olhar humanizado.
A paixão que nasce no “Chão de Fábrica”
Para muitas, o caminho começou no pátio, entre o som das ferramentas e o cheiro de óleo. Niela Mecânica iniciou sua trajetória aos 14 anos na oficina dos pais. O que começou como uma ajuda na parte administrativa transformou-se em paixão quando ela passou a organizar ferramentas e lavar peças. “Foi assim que o bichinho da mecânica me picou”, relata. Hoje, especializada em abrir e fechar motores, ela descreve o sentimento de realização técnica. “Quando eu mexo num carro, eu me sinto maravilhosa, como se eu fosse imbatível, porque fiz uma coisa que a sociedade às vezes diz que eu não teria capacidade”.
A trajetória de Niela não foi isenta de resistências. No início, seu pai via o trabalho como um passatempo para ganhar dinheiro, e clientes frequentemente ignoravam sua presença, recusando-se a aceitar diagnósticos feitos por uma mulher. A virada de chave veio com as redes sociais. Incentivada pela mãe, Niela passou a postar vídeos no TikTok e YouTube para mostrar que a competência não tem gênero. Hoje, a credibilidade conquistada inverteu o jogo: clientes procuram a oficina especificamente por causa dela. Para as que desejam seguir o caminho, seu conselho é direto. “Lugar de mulher também é na oficina… basta buscar conhecimento técnico e ter força de vontade”.

Comunicação e a Curadoria da Informação Técnica
A evolução tecnológica dos veículos exige que a informação chegue com precisão aos profissionais. Vanessa Ramires, Gerente Comercial da Revista O Mecânico, com 23 anos de atuação no setor, destaca que o mecânico que não busca atualização está fadado a ficar para trás. Segundo ela, com a tecnologia embarcada cada vez maior, o desafio atual é “separar o joio do trigo” em meio ao excesso de conteúdos superficiais na internet. A missão é levar a informação fidedigna, com a chancela de quem fabrica as peças, para garantir diagnósticos certeiros.
Vanessa recorda que, há duas décadas, era frequentemente a única mulher sentada à mesa de discussões. Sua permanência foi fruto de uma decisão diária de ocupar espaços com excelência. “Não é porque eu pedi permissão ou quis provar algo… eu estou porque eu decidi ficar e decido isso todos os dias”. Ela reforça que a comunicação técnica é um pilar de profissionalização indispensável para a sobrevivência das oficinas no mercado atual.

Liderança
No topo das corporações, a gestão feminina traz um equilíbrio entre o rigor analítico e a valorização das pessoas. Livia Fukuda, Head da Revista O Mecânico, observa que as mulheres trazem uma “combinação perfeita” para a liderança com a capacidade de manter uma visão estratégica e multitarefa sem perder a essência do cuidado e do zelo humano. Para Livia, essa união de técnica e humanidade fortalece as empresas no gerenciamento do dia a dia.
Essa visão estratégica é compartilhada por Sabrina Carbone, Gerente Global da Frasle Mobility. Com mais de 25 anos de carreira, Carbone utiliza uma analogia marcante. “Temos que sair da árvore e subir em cima dela para enxergar a floresta”. Ela defende que, sem foco na estratégia e naquilo que constrói valor para a marca, as decisões acabam dispersas. Sob sua liderança, o foco está no “ciclo de prosperidade”: investimentos consistentes que aumentam a percepção de valor e a rentabilidade a longo prazo, equilibrando a urgência das vendas com a longevidade das marcas icônicas.

Estética, design e conhecimento do consumidor
A experiência de outros setores também enriquece o automotivo. Livia Fukuda, com bagagem nas áreas de moda e beleza, ressalta que o design e a estética importam e devem ser intencionais, pois geram valor. Além disso, ela enfatiza a necessidade de conhecer profundamente o público. “Quanto mais a gente conhecer o nosso consumidor, melhor para nós para entregar um conteúdo mais relevante e um produto mais eficiente”. Seja o mecânico iniciante ou o gestor de uma grande frota, entender suas dores é a chave para o sucesso comercial.

Mudança de cultura e inclusão como negócio
A transformação chega ao consumidor final através de iniciativas como a Oficina Amiga da Mulher, fundada por Bárbara Brier. Após treinar concessionários em grandes fábricas, Brier percebeu que o problema das motoristas não era a mecânica em si, mas a insegurança e a falta de respeito nos atendimentos. “O mais difícil não foi ensinar o atendimento inclusivo, foi convencer oficinas de que isso não é um selo de marketing, é mudança de cultura”, afirma. Hoje, com mais de 110 oficinas certificadas e 70% da rede sob gestão feminina, ela prova que transformar a experiência em prioridade não apenas inclui, mas aumenta as vendas.

O futuro
O mercado está sendo desafiado a se adaptar a essa nova geração de líderes. Livia Fukuda é enfática. “Se o mercado não está preparado para ter mais mulheres na liderança, eu recomendo que se prepare, porque a gente está chegando para chegar”. No entanto, ela ressalta que essa revolução não deve ser feita por confronto, mas sim “de mãos dadas”, unindo perfis complementares de homens e mulheres para uma visão mais sustentável de todos os elos do setor.
Como conclui Vanessa Ramires, a permanência feminina é uma conquista inegociável. “É um espaço que a gente conquistou e que ninguém vai tirar da gente”. O setor automotivo de 2026 exige atualização, domínio tecnológico e visão estratégica – características que essas e tantas outras profissionais entregam diariamente, provando que, no motor da mudança, a competência é o único combustível que importa.
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Engrenagens da Mudança: A ascensão feminina no setor automotivo Publicado primeiro em
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