Elevação do teor de biodiesel favorece oxidação do combustível, contaminação do sistema e falhas em bicos, bombas, DPF e componentes internos do motor
texto Felipe Salomão fotos Diego Cesilio
O aumento do percentual de biodiesel no diesel comercializado no Brasil tem provocado impactos técnicos relevantes nos motores diesel que circulam no país. Lembrando, no ano passado o percentual chegou na casa dos 15% e para este ano há planos para avançar em 16%.
De volta ao dia a dia dos mecânicos, as oficinas especializadas relatam crescimento nos casos de contaminação do sistema de combustível, falhas em bicos injetores, bombas de alta pressão, saturação precoce do DPF e danos internos ao motor, exigindo manutenção preventiva mais rigorosa e elevando os custos de reparo.
De acordo com Camila Bezerra, especialista em manutenção automotiva da Force MotorSport, a principal mudança percebida nas oficinas está relacionada à estabilidade do combustível ao longo do tempo. “O biodiesel passa por um processo de oxidação muito rápido. A partir de cerca de 30 dias, ele já começa a perder propriedades, absorver água e sedimentar dentro do tanque”, explicou.
Segundo a especialista, o cenário brasileiro ainda apresenta limitações tecnológicas em relação à evolução do biocombustível. “Aqui no Brasil, apesar das campanhas, ainda trabalhamos com uma primeira geração de biodiesel. Em outros países, a tecnologia já avançou para a terceira geração, com composição diferente e maior estabilidade”, afirmou. Esse fator contribui para a formação de resíduos e para o crescimento microbiológico no sistema de combustível.
“O biodiesel favorece a proliferação de bactérias. Bio é vida. Essas bactérias se desenvolvem dentro do tanque e formam uma massa contaminante que segue por todo o sistema”, disse Camila Bezerra. Esse material avança do tanque para o filtro, alcança sensores, bomba de alta pressão, flauta e bicos injetores, comprometendo o funcionamento do motor. “Quando o cliente percebe dificuldade na partida ou perda de desempenho, muitas vezes o sistema já está seriamente danificado”, alertou.
Problemas mais comuns
Entre os problemas mais frequentes observados na oficina estão o travamento de bicos injetores, falhas de lubrificação e aumento da carbonização interna. “Já acompanhamos casos em que um bico travou fechado, houve falta de lubrificação e os anéis e pistões começaram a riscar a camisa do bloco. O resultado foi a necessidade de desmontagem completa do motor”, relatou Camila Bezerra. Em situações como essa, o custo total do reparo pode se aproximar de R$ 50 mil, considerando peças, mão de obra, serviços de usinagem e substituição de componentes do sistema de injeção.
A contaminação também afeta diretamente os sistemas de pós-tratamento de gases. “Essa carbonização não fica só no motor. Ela aparece no sistema de EGR, no DPF, na tampa de válvulas e em toda a linha de escape”, explicou Camila. Segundo ela, sem manutenção preventiva adequada, a crosta formada pode reduzir a eficiência do sistema, provocar falhas eletrônicas e acelerar o desgaste de componentes.
Manutenção preventiva
Diante desse cenário, a especialista destaca que a manutenção preventiva deixou de ser opcional. “Não dá para mudar como o diesel chega até o posto, mas é possível controlar o que acontece a partir do momento em que ele entra no sistema do veículo”, afirmou. Entre as práticas recomendadas estão o uso regular de bactericidas, instalação de pré-filtro de combustível, abastecimento em postos com alta rotatividade e inspeções periódicas do sistema de injeção.
“A cada dois ou três tanques, é importante encher o reservatório, aplicar o bactericida e deixar o produto agir. O tanque cheio reduz a presença de ar, o que melhora a eficácia no combate às bactérias”, explicou. A instalação de pré-filtro também ajuda a reter água e impurezas antes que o combustível chegue aos bicos. “É um componente já comum em caminhões e que passou a fazer sentido também em SUVs e picapes diesel”, disse.
Outro ponto destacado é o diagnóstico técnico. “Hoje, diagnóstico é leitura, não achismo. Aqui na oficina, todo veículo passa pelo scanner logo na entrada. Isso gera documentação e parâmetros claros sobre o funcionamento do sistema”, afirmou Camila Bezerra. Segundo a especialista em manutenção automotiva, esse procedimento protege tanto a oficina quanto o cliente, evitando dúvidas sobre falhas pré-existentes após intervenções mecânicas.
A mecânica especialista também faz um alerta sobre reparos parciais em motores diesel. “Se abriu o motor, o correto é substituir todos os componentes críticos. Economizar em peças pode gerar retrabalho, falhas futuras e comprometer a garantia do serviço”, disse. Para Camila, o avanço das tecnologias embarcadas no diesel exige mudança de postura do mercado. “O diesel ficou mais complexo. Quem trabalha com ele precisa estudar, documentar processos e orientar o cliente. Não existe mais espaço para improviso”, concluiu.
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