domingo, 8 de março de 2026

Engrenagens da Mudança: A ascensão feminina no setor automotivo

Em especial sobre o Dia Internacional da Mulher, entrevistamos profissionais que atuam de diferentes maneiras no setor automotivo  

 

texto Vitor Lima   fotos Divulgação 

setor automotivo, historicamente identificado por um perfil predominantemente masculino, atravessa hoje uma das suas fases mais profundas de reconfiguração. Mais do que uma busca por representatividade, a entrada de mulheres em cargos técnicos, estratégicos e operacionais responde a uma demanda real por precisão, novas perspectivas de gestão e mão de obra altamente qualificada. Nesta análise, observamos como a competência técnica tem superado barreiras culturais e como diferentes frentes do mercado, da graxa no pátio à gestão global, estão sendo ocupadas por profissionais que priorizam a performance, a atualização constante e o olhar humanizado.  

 

A paixão que nasce no “Chão de Fábrica”   

Para muitas, o caminho começou no pátio, entre o som das ferramentas e o cheiro de óleo. Niela Mecânica iniciou sua trajetória aos 14 anos na oficina dos pais. O que começou como uma ajuda na parte administrativa transformou-se em paixão quando ela passou a organizar ferramentas e lavar peças. “Foi assim que o bichinho da mecânica me picou”, relata. Hoje, especializada em abrir e fechar motores, ela descreve o sentimento de realização técnica. “Quando eu mexo num carro, eu me sinto maravilhosa, como se eu fosse imbatível, porque fiz uma coisa que a sociedade às vezes diz que eu não teria capacidade”.  

A trajetória de Niela não foi isenta de resistências. No início, seu pai via o trabalho como um passatempo para ganhar dinheiro, e clientes frequentemente ignoravam sua presença, recusando-se a aceitar diagnósticos feitos por uma mulher. A virada de chave veio com as redes sociais. Incentivada pela mãe, Niela passou a postar vídeos no TikTok e YouTube para mostrar que a competência não tem gênero. Hoje, a credibilidade conquistada inverteu o jogo: clientes procuram a oficina especificamente por causa dela. Para as que desejam seguir o caminho, seu conselho é direto. “Lugar de mulher também é na oficina… basta buscar conhecimento técnico e ter força de vontade”. 

Comunicação e a Curadoria da Informação Técnica    

A evolução tecnológica dos veículos exige que a informação chegue com precisão aos profissionais. Vanessa Ramires, Gerente Comercial da Revista O Mecânico, com 23 anos de atuação no setor, destaca que o mecânico que não busca atualização está fadado a ficar para trás. Segundo ela, com a tecnologia embarcada cada vez maior, o desafio atual é “separar o joio do trigo” em meio ao excesso de conteúdos superficiais na internet. A missão é levar a informação fidedigna, com a chancela de quem fabrica as peças, para garantir diagnósticos certeiros.  

Vanessa recorda que, há duas décadas, era frequentemente a única mulher sentada à mesa de discussões. Sua permanência foi fruto de uma decisão diária de ocupar espaços com excelência. “Não é porque eu pedi permissão ou quis provar algo… eu estou porque eu decidi ficar e decido isso todos os dias”. Ela reforça que a comunicação técnica é um pilar de profissionalização indispensável para a sobrevivência das oficinas no mercado atual.  

Liderança     

No topo das corporações, a gestão feminina traz um equilíbrio entre o rigor analítico e a valorização das pessoas. Livia Fukuda, Head da Revista O Mecânico, observa que as mulheres trazem uma “combinação perfeita” para a liderança com a capacidade de manter uma visão estratégica e multitarefa sem perder a essência do cuidado e do zelo humano. Para Livia, essa união de técnica e humanidade fortalece as empresas no gerenciamento do dia a dia.  

Essa visão estratégica é compartilhada por Sabrina Carbone, Gerente Global da Frasle Mobility. Com mais de 25 anos de carreira, Carbone utiliza uma analogia marcante. “Temos que sair da árvore e subir em cima dela para enxergar a floresta”. Ela defende que, sem foco na estratégia e naquilo que constrói valor para a marca, as decisões acabam dispersas. Sob sua liderança, o foco está no “ciclo de prosperidade”: investimentos consistentes que aumentam a percepção de valor e a rentabilidade a longo prazo, equilibrando a urgência das vendas com a longevidade das marcas icônicas.  

Estética, design e conhecimento do consumidor     

A experiência de outros setores também enriquece o automotivo. Livia Fukuda, com bagagem nas áreas de moda e beleza, ressalta que o design e a estética importam e devem ser intencionais, pois geram valor. Além disso, ela enfatiza a necessidade de conhecer profundamente o público. “Quanto mais a gente conhecer o nosso consumidor, melhor para nós para entregar um conteúdo mais relevante e um produto mais eficiente”. Seja o mecânico iniciante ou o gestor de uma grande frota, entender suas dores é a chave para o sucesso comercial.  

Mudança de cultura e inclusão como negócio      

A transformação chega ao consumidor final através de iniciativas como a Oficina Amiga da Mulher, fundada por Bárbara Brier. Após treinar concessionários em grandes fábricas, Brier percebeu que o problema das motoristas não era a mecânica em si, mas a insegurança e a falta de respeito nos atendimentos. “O mais difícil não foi ensinar o atendimento inclusivo, foi convencer oficinas de que isso não é um selo de marketing, é mudança de cultura”, afirma. Hoje, com mais de 110 oficinas certificadas e 70% da rede sob gestão feminina, ela prova que transformar a experiência em prioridade não apenas inclui, mas aumenta as vendas.  

O futuro       

O mercado está sendo desafiado a se adaptar a essa nova geração de líderes. Livia Fukuda é enfática. “Se o mercado não está preparado para ter mais mulheres na liderança, eu recomendo que se prepare, porque a gente está chegando para chegar”. No entanto, ela ressalta que essa revolução não deve ser feita por confronto, mas sim “de mãos dadas”, unindo perfis complementares de homens e mulheres para uma visão mais sustentável de todos os elos do setor.  

Como conclui Vanessa Ramires, a permanência feminina é uma conquista inegociável. “É um espaço que a gente conquistou e que ninguém vai tirar da gente”. O setor automotivo de 2026 exige atualização, domínio tecnológico e visão estratégica – características que essas e tantas outras profissionais entregam diariamente, provando que, no motor da mudança, a competência é o único combustível que importa. 

The post Engrenagens da Mudança: A ascensão feminina no setor automotivo appeared first on Revista O Mecânico.


Engrenagens da Mudança: A ascensão feminina no setor automotivo Publicado primeiro em http://omecanico.com.br/feed/

Nenhum comentário:

Postar um comentário