Gerente Global da Frasle Mobility falou sobre liderança, carreira, resultados e desafios estratégicos da Fras-le, Fremax, Controil, Moresa, Fritec, Juratek e Nakata
por Felipe Salomão fotos Frasle Mobility/Divulgação
No mês das mulheres, a Revista O Mecânico faz um especial nesta edição e, também, nas nossas redes sociais. Portanto, começamos com uma entrevista exclusiva com Sabrina Carbone, Gerente Global da Frasle Mobility. A executiva, com mais de 25 anos de atuação em marketing no setor automotivo, falou sobre liderança, carreira, resultados e desafios estratégicos das marcas Fras-le, Fremax, Controil, Moresa, Fritec, Juratek e Nakata, além de dar conselhos para outras mulheres que querem entrar nesse competitivo segmento.
Para Carbone, o diferencial está na combinação entre preparo técnico, visão estratégica e vivência prática de mercado. Ao falar sobre desenvolvimento profissional, especialmente para mulheres que desejam crescer no segmento, ela reforçou a importância da capacitação e da autoconfiança. “Meu primeiro conselho é direto: invistam em formação e conhecimento. Construir carreira em um setor tão técnico e competitivo como o automotivo exige preparo, visão estratégica e capacidade de gerar resultados. Fazer marketing é entender profundamente o produto, o mercado e o comportamento do cliente, especialmente em segmentos industriais. É essencial compreender a jornada completa, da escolha à recompra. É nesse percurso que surgem as oportunidades de diferenciação”, destacou.
Quem é Sabrina?
Casada e mãe, Sabrina Carbone acumula mais de 25 anos de experiência em marketing no setor automotivo, com atuação em todas as frentes estratégicas da área. Atualmente, lidera uma equipe com mais de 20 profissionais na Frasle Mobility, sendo responsável pelas marcas Fras-le, Fremax, Controil e Nakata, que compõem um amplo portfólio de produtos voltados aos sistemas de freios, suspensão, transmissão e direção. Veja a entrevista exclusiva nas próximas páginas da Revista O Mecânico.
O Mecânico: Sabrina, você construiu mais de 25 anos de carreira no marketing automotivo. Qual foi a principal decisão que definiu sua trajetória até a posição de liderança global da Frasle Mobility?
Sabrina Carbone: O desafio de construir marcas vem sempre acompanhado de muito reconhecimento do mercado e dos profissionais da cadeia automotiva. No momento em que a decisão foi realmente abrir escuta e diálogo genuínos com nossos distribuidores, varejos, frotas e oficinas mecânicas, e entender os desafios que enfrentam. A partir dessa escuta, começamos a desenvolver serviços e diálogos com eles de forma muito proprietária, e essa foi a decisão mais acertada que tivemos. Gosto das disrupções, das quebras de paradigmas e dos desafios. Isso sempre me moveu. Assim, se eu tivesse que apontar a principal decisão da minha trajetória, foi escolher nunca me acomodar e sempre buscar o próximo nível. Ao longo do tempo, percebi que, quando você se compromete a fazer bem-feito, com foco e responsabilidade, os talentos aparecem e os resultados vêm.
Tenho muita vontade de aprender, mais ainda de ensinar. Para isso, estudar é parte deste desafio de fazer diferente, inovar, ganhar percepção positiva com a construção de marcas e de relacionamento com o canal. E, estudar tem a ver com formação acadêmica, mas também tem a ver com a curiosidade de estudar o mercado, os hábitos de compra e decisão de marcas, as boas e más experiencias do cliente, as dores e desafios da cadeia, as tendências do mercado, pricing (estratégia de precificação), concorrentes, análise de clientes, dados e mais dados que tanto nos dizem e nos orientam o caminho. Na formação acadêmica sou formada em Comunicação Social, com ênfase em Marketing, fiz pós-graduação em Marketing, na UCI, nos Estados Unidos, e um MBA em Gestão Empresarial pela Business School de São Paulo. Ao longo dos anos, também busquei cursos em Marketing Digital, Conteúdo, Planejamento Estratégico, Comportamento do Consumidor, entre outros, sempre conectados ao marketing e às suas frentes estratégicas.
Mas, no fim, tudo volta para aquela decisão inicial de entender profundamente o mercado para poder inovar e estar cada vez mais perto dos profissionais de toda a cadeia e de suas decisões e escolhas de marcas. Foi isso que, de forma consistente, pavimentou o meu caminho até a posição que ocupo hoje.
O Mecânico: Como você desenvolveu sua autoridade em um setor historicamente técnico e majoritariamente masculino?
Sabrina Carbone: Autoridade se constrói com consistência, preparo e entrega de resultados. Em um setor técnico como o automotivo, não basta ter opinião; é preciso ter embasamento e performance para sustentar cada posicionamento.
O mercado automotivo tende a investir no resultado a curto prazo, no resultado de vendas aqui e agora. Em geral, temos sempre dois grandes desafios, promover o máximo do nosso selling out, atingindo os objetivos estratégicos de vendas, margem e rentabilidade. Porém, a construção de marcas fortes, não apresenta resultados tão imediatos. É um processo de construção onde o prestígio da marca vai sendo construído paulatinamente na cabeça dos consumidores. Temos aí uma grande dicotomia: investir em ações no aqui e agora para promover a venda e apresentar resultados imediatos, por um lado, e por outro lado, investir em agregar valor à uma marca e ao longo do tempo, aumentar o seu valor agregado e prestígio, de forma a ter maior rentabilidade. O balanço perfeito destes dois escopos de investimentos e estratégias foi o que, ao longo dos anos, construiu minha especialidade e autoridade diante de um setor que ainda é sim, muito masculino. Equilibrar estas duas forças na estratégia e, ao longo do tempo, provar que fazem sentido, se trabalhadas combinadas, agregando valor à marca e também investindo na venda, foi o ponto de virada. Aprendi também que o respeito vem, principalmente, quando você demonstra conhecimento, responsabilidade e capacidade de execução. Resultado gera credibilidade, e credibilidade constrói autoridade.
Já estamos vendo, hoje, um cenário muito mais diverso, com mulheres ocupando posições de liderança em diferentes áreas. Essa evolução é fruto de muitas trajetórias que, com competência e resiliência, foram abrindo espaço e mostrando que liderança não tem gênero, tem preparo, entrega e consistência.
O Mecânico: Liderar uma equipe global com mais de 17 profissionais exige consistência. Qual é o seu principal valor como gestora?
Sabrina Carbone: Liderar é algo, para mim, que está em constante evolução. Acredito que todo mundo que lidera equipes passa constantemente por novos desafios, porque o ser humano é complexo e a gente está sempre aprendendo um com o outro. Mas, hoje, já com uma jornada longa de liderança construída, acho que a escuta do outro, o interesse genuíno e a vontade de contribuir para a evolução profissional e pessoal do outro é o que mais me direciona para ir me superando na arte de liderar. É uma dedicação diária.
A base dessa construção é a confiança, construída a partir do respeito mútuo. Quando existe confiança de verdade, as relações ficam mais leves, colaborativas e produtivas. A partir disso, conseguimos unir talentos, experiências e diferentes pontos fortes para construir um trabalho alinhado, consistente e com impacto real.
Como líder, tenho um propósito de ensinar que é muito genuíno. Quero que meu time aprenda a pensar estrategicamente, criar, planejar, implementar e mensurar, conseguindo construir para si mesmo uma jornada profissional e de forma consistente. Foco muito em enxergar não apenas para o que eles podem entregar hoje, mas para o que eles podem vir a ser, para onde querem chegar e quais são suas necessidades de desenvolvimento. Entendo meu papel como um caminho de apoio e evolução para cada integrante da equipe.
Para que isso aconteça, é preciso franqueza, abertura, confiança e, principalmente, vontade de se desenvolver diariamente. Liderança não é só gestão de tarefas; é cuidado com as pessoas, com suas expectativas e com seu futuro.
O Mecânico: Ao longo da sua jornada, o que mudou na forma como você enxerga liderança e resultados?
Sabrina Carbone: Hoje, os indicadores evoluíram, as ferramentas se sofisticaram e o nível de leitura de dados se tornou muito mais estratégico. A digitalização trouxe uma capacidade exponencial de mensuração, o que elevou o nível de exigência e precisão nas decisões e a inteligência artificial está presente para contribuir ainda mais. Porém, enxergar além dos resultados e dos dados requer uma visão mais estratégica. Atualmente, com a área de inteligência de mercado sob minha responsabilidade, vejo que os cruzamentos de dados são infindáveis, mas que priorizar o que queremos entender e para qual finalidade é mandatório no processo de evolução. Como capturar a evolução de vendas, a performance dos nossos clientes e buscar os motivos sejam em pricing, em potencial de mercado ou em novos hábitos de consumo, é o segredo para evoluirmos nossos negócios. Temos mais dados, temos mais recurso, mas entendo que a nossa capacidade de extrair e avaliar, para a tomada estratégica de decisões ainda está longe de ser perfeita. É isso que foco em desenvolver. Isso nos dará agilidade e assertividade.
Liderar esse processo de aprendizado contínuo dentro da corporação tem sido muito efetivo para desenvolver nossos talentos e manter antigos talentos atualizados. Nossos resultados, hoje, têm que passar por um processo de informação, mensuração e análise. Conseguimos fazer isso com a inteligência de mercado e com todos os índices digitais, mas ainda há processos dentro do marketing como um todo que precisam evoluir em termos de análise de resultados. Não conseguimos, hoje, por exemplo, mensurar impactos de todas as mídias reunidas, online, offline e eletrônica, em prol do ganho de prestígio e do investimento envolvido. Há muitas evoluções a serem construídas ainda.
O Mecânico: A Frasle Mobility atua em mais de 125 países. Qual é o desafio estratégico de posicionar marcas como Fras-le, Fremax, Controil, Moresa, Fritec, Juratek e Nakata, marcas globais, em mercados tão distintos?
Sabrina Carbone: O grande desafio é equilibrar estratégia global com sensibilidade local. Estamos presentes em regiões como Estados Unidos, América Latina, Índia, Europa e Ásia, e cada mercado tem sua própria dinâmica, seja no perfil da frota, na maturidade do aftermarket ou na estratégia dos pontos mercadológicos como, comercial, preço, serviço ao cliente, comunicação, preço.
Não é possível aplicar uma estratégia única para todos. O que gera valor em um país pode não ter o mesmo impacto em outro. Por isso, o trabalho exige inteligência de mercado, clareza de posicionamento e leitura estratégica constante.
Claro que em termos de posicionamento de marca, há uma proteção e em cada marketing local há um trabalho muito forte de construção das marcas respeitando cada um desses posicionamentos. Frasle será em todos os lugares “Pensou Freios. Frasle”, Nakata será sempre a marca “Pode contar”, Fremax, “O Máximo em Movimento”, e assim por diante. Toda a estratégia de construção local respeita esses posicionamentos e, muitas vezes, também o posicionamento central de pricing . Mas, os negócios em cada geografia acompanham a lógica das dinâmicas de negócios locais e, então, nosso papel é muito mais consultivo e de apoio, com uma importante missão de levar benchmarkings de processos e estratégias que estão dando certo em outras geografias.
Minha vivência internacional contribuiu muito para ampliar essa visão. Ter contato direto com diferentes culturas de negócio e níveis de maturidade de mercado trazem uma compreensão mais ampla sobre como adaptar estratégia sem perder consistência de marca. Essa experiência ajuda a tomar decisões mais equilibradas entre padronização global e relevância local.
No fim, o crescimento sustentável em mercados tão distintos depende justamente do equilíbrio de manter identidade e força institucional ao mesmo tempo em que se respeita a realidade de cada região.
O Mecânico: Dentro do ecossistema da Randoncorp, qual é o papel da Frasle Mobility na construção de soluções integradas para mobilidade?
Sabrina Carbone: Dentro do ecossistema da Randoncorp, a Frasle Mobility tem o papel de consolidar e potencializar um conjunto de marcas e negócios sob uma estratégia comum, ampliando sinergias e fortalecendo nossa atuação em soluções para mobilidade ao redor de todo o globo. A marca institucional nasceu justamente para dar unidade a esse ecossistema em expansão, gerar escala e ampliar nossa capacidade de desenvolver e entregar soluções cada vez mais completas, inovadoras e alinhadas às demandas do mercado.
Hoje, reunimos marcas como Fras-le, Fremax, Nakata, Controil e outras sob uma diretriz comum, com foco claro em inovação, tecnologia, qualidade e compromisso com ESG. Isso nos permite oferecer soluções completas e integradas, conectadas à evolução dos veículos e às novas demandas da mobilidade. Somos uma multinacional brasileira de capital aberto, referência em soluções integradas de produtos e serviços tanto para o mercado de reposição quanto para montadoras, com presença em mais de 125 países e atuação pautada em crescimento sustentável.
Nossa base técnica é um dos grandes pilares dessa construção. Contamos com centros de tecnologia no Brasil e nos Estados Unidos, como o Movetech, em Caxias do Sul, que integra pesquisa, desenvolvimento e inovação em um ambiente colaborativo voltado ao futuro da mobilidade. No Brasil, também temos o CTR – Centro Tecnológico Randon, um dos mais completos complexos de testes da América Latina. O CTR nos permite realizar validações em condições reais e extremas de uso, assegurando segurança, durabilidade e performance com padrão internacional.
No caso específico dos discos de freio, nosso envolvimento e patrocínio na Porsche Cup reforçam essa conexão entre engenharia e alta performance. O uso das pistas da categoria como laboratório em condições extremas nos permite submeter os discos a níveis elevados de exigência, validando resistência, estabilidade térmica e performance em cenários de competição.
E, acima de tudo, mantemos um princípio fundamental: ouvir quem está na ponta. Mecânicos, técnicos e aplicadores são parte essencial do nosso processo porque é na prática que validamos se aquilo que desenvolvemos realmente entrega valor.
O Mecânico: Por fim, qual conselho você daria para jovens mulheres que desejam construir carreira no setor automotivo hoje?
Sabrina Carbone: Meu primeiro conselho é direto: invistam em formação e conhecimento. Construir carreira em um setor tão técnico e competitivo como o automotivo exige preparo, visão estratégica e capacidade de gerar resultado. Fazer Marketing é entender profundamente o produto, o mercado e o comportamento do cliente, especialmente em segmentos industriais. É essencial compreender a jornada completa, da escolha à recompra. É nesse percurso que surgem as oportunidades de diferenciação
E, para ter um bom entendimento de todos esses pontos, tem que ser curioso, somar, entender a jornada de cada profissional da cadeia, seus gaps de conhecimento, suas dificuldades e obstáculos que os impedem de crescer seus negócios, seja na distribuição, no varejo ou na reparação. Tão importante quanto estratégia é proximidade com a realidade. É preciso ir a campo, visitar oficinas, conversar com aplicadores, ouvir quem está no balcão e quem está embaixo do carro. É nesse contato que se entende, de fato, a dor do cliente, a percepção de valor da marca e o que realmente gera confiança no mercado.
Também é importante ter clareza de que marcas sólidas não se constroem da noite para o dia. Esse trabalho exige tempo, investimento consistente e expertise. Nem sempre esse processo é simples e, por isso, resiliência, paciência estratégica e consistência são diferenciais competitivos.
Para as jovens mulheres que desejam seguir nesse caminho, minha mensagem é clara: confiem no próprio potencial, busquem preparo técnico, ocupem os espaços com segurança e não se deixem limitar por estereótipos. O setor automotivo está em transformação e precisa de profissionais preparadas, analíticas e estratégicas. Temos muitas iniciativas para nos conectarmos umas às outras, gerar sororidade e nos ajudar. A AMMA – Associação da Mulheres do Mercado Automotivo, é uma dessas iniciativas que conecta as mulheres em prol deste desenvolvimento coletivo porque competência não tem gênero, tem dedicação, atitude e entrega de resultados.
O Mecânico: Queria aprofundar um pouquinho mais sobre inteligência artificial. Desde quando vocês passaram a usar no cotidiano de trabalho de vocês e, também, na formação? Pode falar um pouquinho mais sobre como isso é usado e adaptado?
Sabrina Carbone: Olha, hoje, lá no marketing, a gente usa o tempo todo. Tudo o que a gente produz está sempre passando, de uma forma ou de outra, por inteligência artificial. Você está fazendo uma apresentação, está desenvolvendo um produto, um texto, criando um artigo, fazendo análise de dados de mídia digital, a gente tem usado muito para isso também. A análise da favorabilidade da nossa marca e todo o conteúdo que a gente produz estão sempre pensando nessa nova forma de geração que tem vindo, que são as respostas. Enfim, pesquisas de concorrentes, a gente tem usado no nosso dia a dia muito mais. Quanto mais você usa, parece que está usando 0,01%. Sempre que você começa a usar, depois usa muito, e ainda assim sente que está usando 0,8%. É sempre assim. Então, tem muito campo ainda, tem muita coisa.
A parte também de geração de imagens: a gente tem usado bastante para representar a nossa formação de cursos. Às vezes a gente coloca alguma coisa, traz esse movimento. Eu usei muito e, ultimamente, apenas nos aniversários das empresas. No ano passado, a Frasle fez 70 anos e, este ano, a Fremax faz 40 anos. Então a gente brinca, pega fotos antigas e traz movimento. Então, é algo muito presente no dia a dia do marketing. As traduções que a gente tem feito nas várias línguas, todo o nosso conteúdo para todos os países. Você vê lá o nosso técnico falando em chinês, em hebraico, em qualquer língua. Então tem sido uma jornada divertida, mas muito eficiente, porque é rápida.
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